
O relógio quebrado caído ao lado da cabeceira da cama me dá a impressão de que eu poderia fazer o tempo parar. Doce ilusão, nada pode me tirar dessa realidade. Mas com o tempo assim, parado, sem ponteiros andando e dando voltas e voltas eu consigo dormir mais tranquila, menos angustiada. Talvez eu deva esquecer do tempo. Talvez eu consiga parar no amanhã e levantar do lugar onde me coloquei, descer da minhas nuvens de sonhos e continuar vivendo, com ou sem você. Sem, eu sei que tem que ser assim agora.
Apesar disso, ainda estou aqui, sentada sobre o algodão fofo da minha nuvem, olhando tudo daqui de cima e esperando pacienciosamente, por você. Estou tão machucada, com o corção partido em tantos pedaços que nem acho mais o algodão tão fofinho assim. Sinto minha nuvem pesada, carregada de chuva, como se quisesse expulsar coisas ruins de dentro de si. Sabe o que acontece nessa hora? A chuva da nuvem são as lágrimas que eu derramo por te amar. Não entendeu o porque da nuvem? Você nao diz que eu sou seu anjinho? Anjos moram no céu, eu deveria me sentir segura no meu lugar e não buscar sempre estar cada vez mais perto de ti.
Minha resiração está pesada agora. Não, não é cansação, não é stress, é o peso da angústia tomando conta e eu lutando com todas as minhas forças para não ser vencida por ele. Sou forte, você sabe, pra tudo, menos para meu amor por ti. Diante desse, não passo de um grãozinho de areia que qualquer vento carregar pro mar. Estou respirando assim porque corri, corri e continuo correndo para tentar achar cada pedacinho do meu coração que eu deixei espalhar quando escolhi você. Era um cristal. Fino, precioso, belíssimo, intacto. Agora, não passa de uma quinquilharia qualquer que você encontra pelas esquinas e lojinhas da vida. Mas eu vou descansarm, outro cristal vai ser lapidado. Tenho tempo pra isso, meu relógio está quebrado mesmo, prei no tempo. Meu coração será novo mais uma vez, longe de cometer os mesmos erros com você.Apesar de despedaçado, ele ainda bate. Saiba que quando ouvir as batidas desse coração, foram todas por ti. Ok?
Sou forte, não sou? Lágrimas que secam o vento, não é? Pois bem, na dor está a minha cura, querida.Hoje eu vejo outro significado para o se nome. Vou reconstruir todos os meus limites, colocar cada tijolinho de razão no lugar de onde eu nunca deveria ter os tirado. Consertar as fechaduras de todas as portas que eu tranquei pra mim mesma quando tentava achar nesse molho de chaves, aquela que abrisse a porta do seu coração. Chaveiro nenhum tem esse segredo pra me dar. Eu tentei ao máximo ser reservada, cautelosa, sensata, ser meu próprio casulo. Mas ao invés disso sou um livro aberto e seu casulo. Porém vejo que a borboleta já está voando bem longe. O casulo está secando, quase se desprendendo do galho onde foi colocado.
Eu ainda vejo seu reflexo nos meus olhos ao me olhar no espelho, mas agora, meus olhos querem ver um propósito, querem ver a vida de novo. Passei muito tempo de olhos cerrados para o mundo e continuamente arregalados pra ti, enquanto todos os olhares do mundo estavam arregalados pra mim e o seu, fechado, como um defunto frio no caixão. Quero saber o caminho de volta pra casa, tenho uma mala pesada para carregar, ela está cheia de lembranças. E preciso de mais espaço ainda, não quero deixar nada no meio do caminho, tudo que perdi por te amar e era meu por direito, vou recuperar. É esse o episódio de hoje na minha nuvem, sinto que me resta pouco tempo aqui no céu. Fui um anjo, seu anjo, mas minha nuvem não suporta mais o peso de meu coração. Posso ser um demônio agora, talvez.Chamas pra você. Fogo pra acordar.


